Depoimentos

Confira os depoimentos de nossos pacientes

As palavras da Claudia para você:

Meu nome é Claudia, eu tenho 45 anos, sou casada há 26 anos com o Ênio que hoje tem 54 anos. Vinte e seis felizes anos de casamento, que nos presenteou com três filhos maravilhosos, presentes de Deus. Esses tempo de casamento com o Ênio realmente posso dizer que foi um divisor de águas na minha vida porque eu até sonhava em me casar e ser feliz, mas não pensei que seria tanto. Temos um amigo que um dia disse assim:


 “O Casamento é um pedacinho do paraíso que Deus oferece para a gente viver aqui na terra”. 


E eu concordo com ele. O casamento quando é bem vivido é isso, e acho que a gente conseguiu alcançar um pouquinho disso na nossa vida. Claro que não existe a perfeição da vida, isso é uma ilusão, uma utopia, o que existe é uma vida com dificuldades, com diferenças, com momentos até de discussões, pois, isso tudo faz parte e é até importante porque somos pessoas diferentes. Mas, que acima de tudo, a gente consiga viver, e digo que eu e o Ênio ainda hoje somos namorados, apaixonados e vivemos esse amor. É realmente um pequeno paraíso nossa vida, nosso lar, nossos filhos.

Mas um belo dia, eu vi uma ameaça a isso tudo com um diagnóstico bastante difícil e inesperado que foi o câncer do Ênio. Em setembro de 2017, ele foi diagnosticado com câncer de mama, muito raro em homens, mas que acontece. Eu sempre tive esse medo de talvez viver isso porque a família dele tem um histórico severo de câncer, tanto da parte materna quanto paterna, mas confesso nunca imaginar que seria um câncer de mama, foi algo inesperado. Eu posso confessar que o período de investigação, de consulta, biópsia e a incerteza, é um período devastador. Essa dúvida, todas as perguntas, "o que vai ser, como vai ser, eu vou conseguir? Nós vamos conseguir? Eu vou perder essa pessoa que eu tanto amo?" Foi muito difícil. É o período da negação, "eu não quero, tomara que não", mas acredito que seja assim para todas as pessoas que passam por isso.

Não teve jeito, o diagnóstico veio e foi confirmado um câncer de mama. E aí? O que a gente faz?


Com o resultado da biópsia em mãos chegamos no consultório do médico e ele com toda sua calma e tranquilidade nos aliviou, foi uma experiência em que realmente saímos de lá aliviados. A forma como ele colocou para nós fez com que acreditássemos que seríamos capazes de passar por tudo isso, que nós iríamos enfrentar. Saímos de lá de mãos dadas e confiantes demais que iríamos passar por cada etapa, cada passo do tratamento com muita calma, muita tranquilidade e foi assim que nós fizemos. 

A CIRURGIA

O primeiro passo é a cirurgia. O que eu como mãe e esposa iria fazer? Tinha uma família para cuidar, um pai e um marido com o diagnóstico de câncer. Então, eu resolvi me encher de força e amor. Eu queria naquele momento cuidar do meu marido e dos meus filhos, porque é óbvio que os filhos iriam sofrer também. Eu cuidei com muita verdade, diálogo e confiança que são o que sempre usamos como ferramenta dentro da nossa família. Eu tentava passar para os meus filhos, a verdade, sim, de que haveriam momentos de dificuldade, de limitação, de sofrimento do pai deles, de passar por todo esse processo, mas que era assim, que todos os pacientes passavam por isso, que era uma fase, que o pai deles estava sobre um excelente cuidado médico e que, da minha parte, cuidaria muito bem dele, estando sempre com eles para tudo o que precisassem. Era isso que eu tentava colocar.

Toda vez que o Ênio tinha uma consulta eu ia com ele, fazia muitas perguntas, todas as dúvidas que tinha precisava que fossem respondidas e eu saía muito satisfeita do consultório porque o médico respondia, explicava, acalmava e isso fazia muito bem para nós. Eu sempre falo que o bem não fica em uma pessoa só, ele se estende, então, assim como eu tinha uma atenção para todas as minhas dúvidas dentro do consultório para depois cuidar do Ênio, isso chegava até aos filhos. Eu falo que eu tinha três pares de olhos azuis em casa me esperando, que eram os olhos dos meus filhos, olhando para mim, buscando tranquilidade e paz e eu conseguia passar para eles, nunca iludindo, sempre com a verdade, a confiança e muita calma. Com muita paciência eu tentava passar para eles que a gente ia enfrentar isso com boas condições, que a gente ia conseguir. 


Então veio a data da cirurgia, o Ênio fez a mastectomia total e se recuperou muito bem. A partir da retirada do material, foi realizada uma nova biópsia para trazer a informação de qual tipo de tratamento ele iria fazer. Foi constatada a necessidade de fazer a quimioterapia. Eu me vi um pouco assustada, "como que eu ia fazer, como iria cuidar dele, será que eu iria conseguir cuidar dele?" Mais uma vez os medos e as angústias que são normais desse processo. Eu acho que, ao mesmo tempo que a gente se enche de força, de coragem, de amor para tudo, os medos e as angústias aparecem, é um tsunami na vida da gente. Vem o choro, eu chorava sozinha, eu orava, pedia muito para Deus para me ajudar. Eu me lembro que eu tinha marcas nos meus joelhos, de tanto que eu me ajoelhava diante de Deus e pedia que Ele cuidasse do Ênio para mim e me ajudasse a cuidar dele. E ele me ajudou, nos ajudou. 

A QUIMIOTERAPIA

Eu estava muito tensa quando o Ênio começou a quimioterapia, com muito medo do que ele ia passar. E eu me preparei para algo muito pior, muito mais difícil. No entanto, ainda que não tenha sido fácil para ele, para a minha surpresa depois de quando vi como era, digo que não foi tudo aquilo que eu pensei. Ele foi bem medicado, bem cuidado. Foi muito mais fácil do que eu imaginava que fosse. Ele passou bem, teve sintomas normais do tratamento, mas não de forma severa e acho que especialmente a paz dele ajudou, ele sempre foi uma pessoa muito serena, de muita paz, muita confiança e paciência. Tudo isso é tão importante neste momento, não se entregar à revolta, desespero, negação, não dá para ser assim, a gente precisa aceitar porque essas coisas fazem parte da vida das pessoas e sempre achamos que acontece apenas com os outros, mas acontece com a gente também. E quando acontece, a gente tem que aceitar, lutar, e com armas benéficas, positivas, que irão nos beneficiar que são: confiança, paz, amor, colaboração, dedicação, tanto do paciente, dentro do possível, quanto de quem cuida do paciente. É muito difícil eu concordo, tem momentos de se sentir cansados, de pedir colo e a gente deve pedir colo das pessoas que amamos e confiamos... Mas depois que passou aquele medo, aquele impuslo do choro, da entrega do sofrimento, a gente tem que se encher de força novamente e lutar a cada dia. Eu li recentemente nas redes sociais algo que diz assim:

“Nada é eterno, mas tudo o que a gente cuida dura mais”.


E eu concordo com isso, eu só li isso agora, mas lá no inicio do tratamento do Ênio era assim que eu pensava, eu não podia oferecer o tratamento médico, a medicação, o conhecimento, mas eu tinha outras coisas a oferecer a ele que era o cuidado, o cuidado com a alimentação, o conforto e bem estar dele, o amor, o carinho. Eu me preocupava para fazer com que ele passasse da melhor forma possível por esse processo, eu sabia que ele tinha os sintomas, os medos, os sofrimentos, mas eu queria que fosse um pouco mais leve. Então eu cuidava da alimentação, para ele dormir bem, que ele estivesse descansado, não sofresse nenhum estresse desnecessário, que ele se sentisse amado, acolhido e amparado. Que tudo isso que eu tinha para oferecer para ele o ajudasse a passar de forma mais leve. Esse foi o combustível para cuidar dele neste período. Ele sempre cuidou muito bem de mim, sempre foi companheiro, parceiro, carinhoso, e eu queria dar o céu para ele e não foi perfeito, não era a intenção, mas dei o melhor que tinha em mim para tentar ajudá-lo a passar por tudo isso. 

O CUIDADO HUMANO

Eu acredito que, como esposa e ser humano, existe o tratamento médico, mas existe também o lado humano da história que é importantíssimo na vida das pessoas e é, inclusive, curativo, trata-se do: amor, carinho, parceria, fidelidade, eu acredito com todas as minhas forças nisso. Neste período de tratamento, achamos que vai ser tudo tão difícil, terrível, negativo, mas para nossa surpresa, quando chegamos para iniciar a quimioterapia, nós fomos ali criando uma nova família. As pessoas que cuidavam do Ênio, dedicavam-se inteiramente, doavam-se com toda atenção e profissionalismo para cuidar dos pacientes e para cuidar em especial dele, que era quem eu acompanhava. Um tratamento humano que mais uma vez a gente se surpreendeu achando que tudo seria tão terrível e era tão acolhedor. Era confortador, tornava tudo mais fácil.

Quando eu passava de carro na frente do ISPON antes do diagnostico do Ênio, por saber que ali se fazia tratamento oncológico, às vezes eu até olhava para o outro lado, não queria olhar, negava aquele lugar. Mas a vida é interessante e um dia eu tive que entrar ali com meu marido que tanto amo para fazer um tratamento oncológico. E ali nós descobrimos uma nova família. Foram momentos inesquecíveis que nos fortaleceram, nos mantiveram de pé, fizeram com que acreditássemos no ser humano, transformasse-nos, melhorasse-nos como ser humano, que a gente acreditasse ainda mais no bem, não que não acreditássemos antes, mas ali foi algo grandioso, inesquecível, foi uma experiência transformadora. Como um dia o Ênio fazendo quimioterapia, e entra uma pessoinha, doce, meiga para ler uma poesia para ele. Quem ia dizer que em um momento de quimioterapia teríamos algo tão especial, e quando olho tem uma pessoa lendo uma poesia para ele, iniciando um projeto de levar poesia para os pacientes quimioterápicos. Ele foi o primeiro paciente deste projeto. Essa pessoa lendo uma poesia e a equipe de enfermagem em volta, revelou a humanidade e o calor humano transbordando ali, preenchendo a gente de fé, de confiança, de força, para acreditar e fazendo com que a gente tivesse uma força extra para enfrentar tudo isso, foi inesquecível.


Um outro momento que achei incrível, foi um dia que precisavam puncionar o Ênio, e como ele já havia feito várias sessões e não usava o cateter, estava muito difícil realizar o procedimento. Passou-se uma hora e três enfermeiras tentaram, com muita responsabilidade. Eu fiquei observando o tratamento com ele, a calma, todas elas com muita paciência fazendo essa tentativa com respeito e generosidade. Ao mesmo tempo, ele como paciente também calmo, permitindo que elas realizassem o trabalho delas. Eu acho que nesse momento meus olhos brilharam observando isso, o tamanho da humanidade, do que há de mais belo no ser humano. Algo de muito aprendizado pessoal. Gratidão por passar por um processo onde recebemos e aprendemos tantas coisas boas.


O que tenho a dizer depois de tudo isso é que não podemos fechar os olhos para o que há de bom por trás de um momento assim, acho que a gente não pode se revoltar e se entregar ao negativismo, a ver apenas o lado ruim, do sofrimento. Temos que acreditar que tem coisas boas também, precisamos observar, aprender a absorver o que tem de bom. Um processo de doença severa não é brincadeira, não é fácil. Falo que é devastador ter um diagnóstico e passar por isso. Falo também que só quem passou sabe o que é, mas é um período de crescimento, de aprendizado que a gente não encontra palavras para descrever. É um processo que nos torna mais fortes, mais agradecidos, mais humanos. Não é vazio, vem também com muita coisa boa e temos que arrancar o que há de melhor dentro da gente para passar por isso, porque o paciente precisa de amor, apoio, carinho, paz. Não é fácil estar doente, não é fácil passar por um câncer. Então a gente precisa ajudar essa pessoa com força, amparo. Para mim, como familiar foi difícil também, mas recebi muita coisa boa ao me doar. Quando o Ênio passou pelo tratamento de cirurgia e quimioterapia, eu fui cuidada também, chegou até a mim e aos nossos filhos tudo o que recebíamos de bom. Isso é contagioso.


O que posso deixar dessa experiência, tendo consciência que outras experiências podem ser muito mais difíceis em um tratamento oncológico que a minha, existem muitas perdas, eu sei, mas que agente não pode colocar o ruim, a gente tem que colocar e absorver o que é bom, o melhor que tiver em volta de nós. Isso é um remédio, é também um tratamento, é curativo! Nisso que eu acredito e que tenho para passar às pessoas que estão passando por isso e que eventualmente poderão passar:


O bem, amor, paciência, gratidão.

Claudia Karkow, esposa, mãe e amiga amorosa!


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